domingo, 3 de agosto de 2008

Ofélia


A gravitação é uma necessidade e uma contingência, abarcando toda a humanidade, e também o universo em uma corrente que não permite escolhas. O ponto estacionário é o nadir, onde nada se move e tudo permanece estático, congelado, como se até o vento tivesse dificuldade em se mover no espaço. A gravitação nos atinge e só há um ponto de fuga: o ponto indicado pela própria gravidade. Nossa gravidade é vertical e é a mesma indicação reconhecida por qualquer semente, esteja ela em que posição estiver no solo, para crescer e buscar algum ponto sobre o solo. É um mistério difícil de ser decifrado pela ciência, mas em boa terra toda planta busca o seu zênite, o ponto culminante de todas as suas possibilidades de crescimento, e este ponto sempre lhe indica a direção: para cima.

Tal é com a cerejeira: quando pensamos ter alcançado toda a sua possibilidade ao produzir suas primícias frutíferas, ela se alarga; quando se alarga, estende suas possibilidades: produz em fartura; sua copa já se arca sobre seu dorso, o tronco, e então lhe nascem outras árvores sob a sombra protetora de sua copa maternal. Já não bastasse ser seu fruto o alimento da terra, é também o manjar das aves; sua sombra é das aves o descanso, seus ramos e galhos são o abrigo dos ninhos: berçário natural. A ave adulta, em pleno vôo abjeta a semente: espalha-se mais uma possibilidade e daí nasce outra cerejeira, todavia, longe daquela que lhe dera origem, brilhando em meio a uma vegetação diferente, criando novas matizes num caleidoscópio em floresta: cores, cheiros, vista de verde, vista de fruto, vista de flores. A natureza ensina-nos que há sempre um ponto mais alto a alcançar e, quando pensamos ser a floresta tudo o que é ao verde cabível encontramos, no pico de montanhas congeladas singelas flores, pequenos lírios cristalizados, enchendo nossos olhos de perplexidade e encantamento em uma translundação de vida e vigor em meio à débil força vicejante dos lugares congelados. Lá está, a pequena flor branca, minúscula, quase invisível, captando os raros raios solares sobre a atmosfera de pesadas e permanentes nuvens.

Contrariar o curso natural do desenvolvimento assemelha-se a um rio reduzindo sua corrente a um pequeno curso d’água, limitando-se a alimentar algum lago, reproduzindo de modo infinitamente menor sua própria possibilidade de expansão. Pelas suas correntes somente se arrastam anfíbios, deslizando entre a água de sua fraca torrente e as pedras de um leito liso. Nenhuma vida agitada, nenhum fundo para mergulhar, nenhuma água mais profunda, não há vida em camadas pois há somente uma camada de vida, e não há distinção entre o raso e o fundo.
Quando as águas são fundas, várias vidas se movem na presença de um único ente, manifestando em um multifacetado jogo de cores pequenos traços de vida, imanências, compondo uma incrível transcendência. O musgo, o peixe, o lagarto; águas tensas, águas leves, escuras e transparentes; algumas simplesmente agitadas, são translúcidas. Uma tensão calma permite ao leve inseto flanar sobre o espelho d’água. Lá também está Ofélia, assistindo seu reflexo na segura margem, produzindo uma imagem antagônica: o rio profundo e calmo, cheio de vida e de matizes variadas refletindo uma criatura cujo ser representaria um córrego tão raso que nem permitiria o reflexo de qualquer imagem que fosse, pois sua duvidosa transparência fina só revela as pedras ao fundo.

Refletindo seu rosto naquelas águas Ofélia ficara extasiada com a própria beleza, em uma contemplação muda, parecendo mesmo estar, para alguém que lá a visse, perdida em pensamento. Não havia, entretanto, pensamento algum. Se a natureza nos ensina que a beleza está nas coisas simples e que o simples possui o belo dentro de si, poderíamos deduzir o mesmo de todos os viventes racionais; mas parece haver um divórcio entre a beleza e a simplicidade: onde deveria haver o simples há o simplório; no lugar da inteligência, a presunção; onde deveria haver razão, há vaidade. O capricho substitui o talento e a efusão de idéias é substituída por um diálogo de lacônicas respostas. Os lábios em tons rubros lhe são o adorno do rosto, mas não os porta-vozes do espírito.

Há criaturas que não compreendemos pela facilidade com que podem ser compreendidas. As festas, para Ofélia, tinham de ser cheias de eventos sucessivos, pois qualquer traço de calma já lhe remetia à monotonia e a entediava. Os livros eram como castigos auto-imputados, pois também lhe aborreciam, mas proporcionavam meios de se mover nas altas esferas, escondendo sob a máscara da intelectualidade a falta de argúcia. Nada ali era muito verdadeiro e, simultaneamente era de uma verdade insipiente, pois nenhum desejo era sublimado e, se houvesse alguma sublimação, significava ter atingido o limite entre o desejo e a honra. Nenhuma risada contida, nenhum pensamento irrefletido permanecia calado, este pequeno córrego era selvagem em sua natureza, pois em nenhum ponto permitia-se represar, nenhuma contenção da vazão.

Raros momentos, porém, manifestam alguma inteligência em Ofélia: a raiva, o delírio, a frustração; e isto pode se explicar pelo fato de a estupidez lhe ser um elemento positivo e a inteligência uma força negativa, devendo a todo custo ser evitada. É um ouriço, armado, inchado em defesa. Frágil, se arma somente sob ameaça, somente com o cunho de macular e se defender. Na acusação de sua estupidez ela se arma, com uma verborragia incontinente, clamando sua erudição adquirida a duras custas e sofrimento – não por deleite – chicoteando e argumentando com língua ferina, reivindicando sua tão preciosa honra.

Sua cavidade já foi muito perscrutada como um meio de compensação, pois esta é a lei dos homens: a falta de prazer na mente justifica o prazer no corpo, e quando a mente não se deleita, o corpo aberto se deita. Ofélia, tua pureza não advém da disciplina, mas de teus amores escondidos, bem ocultados, preservando aquilo que chamas de honra.

Ofélia passou, sua vida passou, como um filete d’água esgotado, ninguém percebe. Sua vida toda passou, sem significado, sem mudança. Morreu quase tal como nasceu. O tempo se esgota, a ampulheta da vida escoa seus grãos inexoravelmente, reduzindo nossa jornada. Por quais paragens deixamos nossas pegadas? Quem encontramos? Quem mudamos? Quem nos mudou? O que tal odisséia significou?

domingo, 2 de março de 2008

O ímã do desejo


Por mais que a espécie humana tenha evoluído, permanecem ainda resquícios de um pensamento animal. Esses instintos são tão fortes que interferem até na direção dos nossos pensamentos e, por fim, do desejo. O homem, mais que a mulher, é vítima dessa forma de desejo: a atração física.

Somos muitas vezes tão consumidos que somente uma autodisciplina grande é capaz de nos livrar de sermos vítimas dos caprichos da natureza. Aqueles que seguem o instinto, por outro lado, enveredam por um caminho tortuoso, cheio de espinhos. Pior que se espetar em espinhos é quando somos o espinho. Assim, muitos homens vão, como abelhas, de mulher em mulher, de beleza em beleza, sempre procurando um êxtase que não existe.

A beleza volátil, sempre desaparece onde estava anteriormente. O deslumbrante se torna comum com o tempo, e logo é necessário uma nova beleza, porque a que havia já se acabou. Beleza terminada pelo tédio, pela falta de palavras ou pelas palavras vazias, destituídas de um pensamento atrativo.

Mas existe um tipo de atração que é próprio daqueles que conseguiram dominar os seus instintos: a atração do subjetivo, do pensamento, das palavras que se casam. É a atração que vai crescendo aos poucos, atração que vai crescendo por um ser de beleza comum, mas com grandes idéias, com um pensamento atraente, com palavras que fustigam lá dentro da alma despertando o que há de melhor em nós.

E é com esta beleza que podemos permanecer e descansar, sem ter de ficar procurando incansavelmente uma nova beleza, porque por meio da atração do subjetivo a pessoa desejada vai se tornando cada vez mais bela, e por meio das palavras somos cada vez mais cativados – uma atração que só cresce, ao contrário da que desaparece com o tempo.

Não ignoro a atração física, mas penso que não devemos ser escravos dela e sim vermos nela um importante detalhe.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

A caixa de pensamentos prontos


A maior preguiça que encontrei no Homem – é a de pensar. Tamanha é a sua preguiça que ele se tornou um colecionador de ossos. Sua fome é por frases que busca em faixas, cartazes e livretos! Frases que lhe sirvam para inúmeras situações do cotidiano. Chamo-lhes frases de gaveta, pois ficam guardadas nas gavetas da mente. Pessoas acham que com tais frases de gavetas pode-se ensinar, confortar ou até mesmo perscrutar o espírito alheio; quando na verdade tudo o que fazem é regurgitar velhas verdades ou proferir as palavras decoradas. Não possuem verdades próprias, só possuem as verdades que “roubaram” de outras pessoas. Não sabem elas que, embora muitas situações sejam semelhantes, nenhuma é igual à outra. Todas necessitam que se pense de uma nova forma.

Assim como a pessoa tem sua individualidade, o momento também tem. É preciso que se respeite isso. Proferir essas frases de gaveta, esses chavões, essas distorcidas verdades poéticas, isso não adianta nada.

Está alguém alegre? – lhe solta uma frase de gaveta. Está alguém triste? – lhe solta outra frase de gaveta. Isso mata o espírito da individualidade. O engodo mostra-nos como se todos os problemas pudessem ser resolvidos com provérbios baratos, ou melhor, frases de gaveta - o que é uma mentira. É, também, como se todas as pessoas pudessem se encaixar, em determinada situação, com alguma dessas frases ou ossos. Frases assim não passam de ossos, pois é tudo o que restou de alguma verdade que já morreu há muito tempo...

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Além das percepções da inteligência sensível


O Homem sem dúvida é uma criatura que julga e dá valor às coisas: para mais ou para menos. Em tudo deve constar uma balança, inferindo poder, fraqueza, valor, desdém, cultura, ignorância, nobreza, ignomínia. O leopardo fustigando tocas, correndo pelos prados, acha a lebre e, se lança em sua direção enquanto sua presa, sentindo a adrenalina envolvê-la e a todos os seus membros, arremete-se em desesperada tentativa de fuga: uma luta que de ambas as partes a recompensa é permanecer vivo. Para o Leopardo, é a lebre a mitigar sua fome, para a lebre, sobreviver. Nossas percepções sensíveis sempre apontam para a escala da força do poder, mas, que seria do Leopardo se não houvesse sua presa, animal mais fraco, substrato dos seus objetivos?

Qual seria a maior virtude? O leopardo que caça ou a lebre caçada? A lebre é a doação dadivosa, a presa abocanhada, sustentando com a fibra da sua substância o interior do leopardo, e este, devora o adorável adversário, para não se tornar presa do seu próprio estômago, o inimigo interior que lhe exige, inexoravelmente, alimento.

Em ambos os lados há sempre virtude que o homem, este ser que resguarda seu lado primitivo selvagem, não consegue ver, pois para ele deverá sempre haver um vencedor e um perdedor quando, na verdade doar-se constitui também uma vitória: a de se ser necessário; fato além das percepções da inteligência sensível, mas do juízo dos valores.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

A Música e o Coração


A dificuldade que todos têm em compreender a eternidade é proporcional à necessidade de criá-la. Se pudéssemos comparar a extensão da nossa vida com as nossas lembranças, poderíamos comparar cada uma delas com um copo de areia em relação a toda areia que se estende pela borda da praia. Cada lembrança uma imanência, uma porção de areia, comparando-se a toda a faixa transcendente. O copo, a retenção, são as músicas que compõe nossa máquina metafísica de sentimentos, cognominada de "coração", cuja força avassaladora só conhecemos quando dela temos que nos utilizar, sem nenhuma dose de utilitarismo e sim pela necessidade interior do nosso espírito.

Assim, cada música nos remete ao passado, às lembranças; nosso pequeno tele transporte que compõe tudo o que somos. Um amor adolescente, uma tristeza passada, uma época feliz ou triste. Talvez um lugar específico, ou um conjunto deles. Para cada um desses lugares do nosso coração a música nos leva. A imanência: a música, a lembrança; a transcendência: a vida. Transcendendo a vida, apenas a eternidade.

Da mulher interior


Existe algo de inexplicável em determinadas mulheres, algo que para nós homens se tornam um sublime mistério. Sobretudo na mulher interior. Há criaturas que são como crisálidas vazias, retendo em seu interior apenas o vácuo de uma beleza que lá existia e, em seu exterior apenas cintilando a beleza da natureza que nela se reflete.

A mulher interior é a borboleta feita, é o colorido que compõe a flor, é o néctar, o éter, é o ser que flutua e vaga na imensidão de si; tem um coração afetuoso que aquece, serena, conforta, acolhe. Tal criatura é admirada até mesmo por aqueles que a desprezam, cria discípulos secretos, pois, revela o divino nas entrelinhas de seus atos.

Poderíamos dizer que ela é a aurora de primavera, é o paraíso que edeniza o lar doméstico; cativa sem nenhum esforço. Basta com ela estar um dia e já nos sentimos cativados, prisioneiros, inebriados por esse etéreo encantamento que lhe sai dos poros e que nos leva arrastados. É, sem dúvida, uma voluntária prisão daqueles que mesmo desejam lhe ser súditos.

Tal criatura, diferente das demais, não perde seu viço ao longo dos anos. Sua beleza reside naquilo que se esconde por trás da simples aparência. Existe nela sempre algo de divino, de pacificador, de sereno, de sublime. Enfim, é um anjo em invólucro humano, é a mulher interior: não é aquela a aguçar os olhos dos homens quando a vêem, mas aquela que lhes enternece os corações.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Cor Da Noite


Cor da noite, disfarça toda beleza,
tirando minha tristeza, por sozinho aqui
estar;
embala como em berço, meus
sonhos de feliz sempre estar.
Traz a mim o conforto, para
cada novo dia começar.
Retira todo cansaço,
dá-me o ganho daquele anjo, que
está a me alegrar.

Cor da noite, embala num sonho minha
amada, de poesia e amor.
Prepara meu coração, para
cultivar essa canção, que o amor
quer me dar.
Cor da noite fê-la cintilar, como
Estrela no céu está a brilhar.
Assim como a lua me mostrou sua face
mais bela, ela me mostrou sua
face Cinderela, que me fez apaixonar.

Cor da noite: que o teu viver possa ser poesia;
que o teu sorrir tenha sempre alegria;
que o meu amor não venha a
ser fantasia, mas que possa
ser nostalgia, para por ti
morrer de tanto amar.

O Livro, o Prisma e a Retina


Ah os livros. Tenho uma porção deles, posso garantir. Não leio tanto quanto gostaria, mas leio em todos os momentos que o tempo me permite, e quando o silêncio parece colaborar comigo.

O livro que leio tem de significar um desafio, caso contrário torna-se tedioso pra mim. Gosto dos “livros difíceis”, das “palavras complicadas”. Livros banais, tratando das coisas cotidianas são fastiosos, pois de banal e cotidiano já basta minha vida.

Os livros nos apresentam diferentes retinas de uma mesma realidade, nos mostrando o prisma sob o qual determinado autor enxergava a árvore que agora contemplamos. Há espíritos diminutos, que pouco se desenvolveram e pouco nos tem a mostrar através de seu olhar, e há os espíritos abissais, onde o pensamento se dilata como um universo em constante expansão. E são estes últimos a quem procuro.

Sartre tem a retina cinza, apresentando uma paisagem melancólica, feita de tédio e de náusea, uma realidade sem maquiagem, a alquimia da verdade em cada palavra. Nietzsche tem um colorido escurecido. Sua filosofia é cheia de preconceitos, mas sua escrita poética encanta mesmo quando discordamos de seu pensamento. Bernard Cornwell é feito de cores vivas, e mesmo tratando de dilemas tristes, de guerras em lugares bucólicos, seu prisma consegue irradiar luz branca.

Livrei-me de alguns livros como “As 48 leis do poder” que ensina as pessoas como subir na vida trepando por cima das cabeças de outras pessoas. Esse livro não tem utilidade para mim. Li, mas não consegui entrar nele. Dei embora junto com outros e hoje sou feito só de livros que amo e que releio. Comprei outros livros, no sebo mesmo, e são os mais baratos, com as encadernações mais luxuosas e que ficam na parte dos clássicos.

Os pensamentos mais sofisticados são os mais acessíveis, e os menos procurados. Não é irônico? Enquanto eu fujo da futilidade da minha vida, dos fatos banais, outras pessoas vão ao encontro à futilidade, procurando ler e perscrutar aquilo que acontece a cada dia com elas mesmas. Bem, só posso tratar de mim, os outros são os outros.

O importante é saber olhar a vida sob outros livros, sob outros prismas e sob outras retinas.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Ligações com o Sujeito B


Tenho ligações com o Sujeito B há quase dois anos. Trata-se de uma mulher, que mora no universo paralelo. Vim a conhecê-la quando ocorreram problemas de linha cruzada entre esses dois universos.

Quando se fala tanto tempo com uma mesma pessoa, certas palavras perdem significado, como: tautologia, vanilóquio, solilóquio – pois todas as outras palavras ganham significado e nada mais é vazio e sem sentido. Quando se conhece um sujeito que vive no mesmo universo fica difícil ignorar, passar despercebido, desligar-se. Já a comunicação do universo paralelo permite todas essas coisas. É lícito, entretanto não desejável.

Espantoso é notar que o telefone poderia ficar no gancho, sem ser levantado, acabando totalmente com qualquer ligação que tenho com o Sujeito B; porém, já não consigo fazer isto. Sempre atendo.

O Sujeito B está sempre pesquisando algo novo, é um mar de novidades mesmo quando o mar de idéias está em época de calmaria, não tendo uma única brisa pra desarrumar a mecha do cabelo.

O distanciamento e interrupções nas ligações com o Sujeito B são apenas para renovar idéias, pensamentos, e vir novamente discutir tudo isso, como uma pauta nova. Assuntos são debatidos, sem a preocupação para se chegar a um arrazoamento definitivo.

A necessidade de que tenho de ouvir o Sujeito B é algo fora do comum, definitivamente; assim como a necessidade de que tenho de falar ao Sujeito B. Sei que as pessoas têm pensamentos diferentes a respeito das mesmas coisas, mas quando encontro alguém que não se interessa em discutir o certo ou errado, simplesmente quer falar da maneira que pensa, isso me cativa.

Talvez esse seja o grande motivo pelo qual continuo conversando com o Sujeito B, e atendendo o telefone todas as vezes que ele toca. Urbi et orbi, isso me seguirá.

Oi, pode falar mais alto!?


Antes de qualquer pergunta, quero esclarecer que a figura ao lado trata-se de um ouvidor, usado antes da invenção dos radares, para ouvir os aviões se aproximando.

Cada vez mais penso que existem menos pessoas dispostas a ouvir. Sabe, como disse anteriormente, há muitos que querem barulho, estar escutando algum som qualquer... mas sem prestar atenção. Já há quem diga que no lugar de cursos de oratória deveríamos ter, em igual escala, cursos de escutatória.

Penso que quem sabe ouvir tem mais sorte, porque este ato exige percepção – sentir a outra pessoa –, perscrutar o íntimo de alguém com os olhos e os ouvidos, catalisando os gestos, movimentos e expressões faciais. Também é um momento de catarse, porque ouvindo o que se passa com esse alguém também podemos olhar pra dentro de nossas cabeças e corações e verificar como estão as coisas por lá.

Acredito que os grandes autores são os que sabem ouvir. Talvez desse exercício de percepção tenham surgido os grandes pensamentos que “adivinham” o que se passa em nosso íntimo.

Quando não há um escutar, há um interromper. Interrupção é a falta de vontade de se exercitar no escutar. Não saber escutar é não saber se interiorizar, porque quem não sabe ouvir a voz do silêncio também não é capaz de ouvir alguma vivência, pensamento ou experiência externa. Assim, tais pessoas não amadurecem, não crescem e nem se tornam o que poderiam se tornar, pois suas palavras são vazias e as idéias são ocas.

Aquele que escuta é quem gosta de perceber outras pessoas, notar os estados de espírito e as mudanças de humor. Gosta de ler, de captar idéias. Quer captar novas idéias e pensamentos, não importando a forma como ela se apresente. Tem sempre uma palavra cheia de significados, sempre algo edificante, sempre a idéia dita da maneira mais bela. Mesmo em tempos difíceis, consegue ser virtuoso; afinal, é fácil ser virtuoso quando os tempos são virtuosos.

Isso me faz pensar até que quem sabe ouvir também pensa mais.