
A gravitação é uma necessidade e uma contingência, abarcando toda a humanidade, e também o universo em uma corrente que não permite escolhas. O ponto estacionário é o nadir, onde nada se move e tudo permanece estático, congelado, como se até o vento tivesse dificuldade em se mover no espaço. A gravitação nos atinge e só há um ponto de fuga: o ponto indicado pela própria gravidade. Nossa gravidade é vertical e é a mesma indicação reconhecida por qualquer semente, esteja ela em que posição estiver no solo, para crescer e buscar algum ponto sobre o solo. É um mistério difícil de ser decifrado pela ciência, mas em boa terra toda planta busca o seu zênite, o ponto culminante de todas as suas possibilidades de crescimento, e este ponto sempre lhe indica a direção: para cima.
Tal é com a cerejeira: quando pensamos ter alcançado toda a sua possibilidade ao produzir suas primícias frutíferas, ela se alarga; quando se alarga, estende suas possibilidades: produz em fartura; sua copa já se arca sobre seu dorso, o tronco, e então lhe nascem outras árvores sob a sombra protetora de sua copa maternal. Já não bastasse ser seu fruto o alimento da terra, é também o manjar das aves; sua sombra é das aves o descanso, seus ramos e galhos são o abrigo dos ninhos: berçário natural. A ave adulta, em pleno vôo abjeta a semente: espalha-se mais uma possibilidade e daí nasce outra cerejeira, todavia, longe daquela que lhe dera origem, brilhando em meio a uma vegetação diferente, criando novas matizes num caleidoscópio em floresta: cores, cheiros, vista de verde, vista de fruto, vista de flores. A natureza ensina-nos que há sempre um ponto mais alto a alcançar e, quando pensamos ser a floresta tudo o que é ao verde cabível encontramos, no pico de montanhas congeladas singelas flores, pequenos lírios cristalizados, enchendo nossos olhos de perplexidade e encantamento em uma translundação de vida e vigor em meio à débil força vicejante dos lugares congelados. Lá está, a pequena flor branca, minúscula, quase invisível, captando os raros raios solares sobre a atmosfera de pesadas e permanentes nuvens.
Contrariar o curso natural do desenvolvimento assemelha-se a um rio reduzindo sua corrente a um pequeno curso d’água, limitando-se a alimentar algum lago, reproduzindo de modo infinitamente menor sua própria possibilidade de expansão. Pelas suas correntes somente se arrastam anfíbios, deslizando entre a água de sua fraca torrente e as pedras de um leito liso. Nenhuma vida agitada, nenhum fundo para mergulhar, nenhuma água mais profunda, não há vida em camadas pois há somente uma camada de vida, e não há distinção entre o raso e o fundo.
Quando as águas são fundas, várias vidas se movem na presença de um único ente, manifestando em um multifacetado jogo de cores pequenos traços de vida, imanências, compondo uma incrível transcendência. O musgo, o peixe, o lagarto; águas tensas, águas leves, escuras e transparentes; algumas simplesmente agitadas, são translúcidas. Uma tensão calma permite ao leve inseto flanar sobre o espelho d’água. Lá também está Ofélia, assistindo seu reflexo na segura margem, produzindo uma imagem antagônica: o rio profundo e calmo, cheio de vida e de matizes variadas refletindo uma criatura cujo ser representaria um córrego tão raso que nem permitiria o reflexo de qualquer imagem que fosse, pois sua duvidosa transparência fina só revela as pedras ao fundo.
Refletindo seu rosto naquelas águas Ofélia ficara extasiada com a própria beleza, em uma contemplação muda, parecendo mesmo estar, para alguém que lá a visse, perdida em pensamento. Não havia, entretanto, pensamento algum. Se a natureza nos ensina que a beleza está nas coisas simples e que o simples possui o belo dentro de si, poderíamos deduzir o mesmo de todos os viventes racionais; mas parece haver um divórcio entre a beleza e a simplicidade: onde deveria haver o simples há o simplório; no lugar da inteligência, a presunção; onde deveria haver razão, há vaidade. O capricho substitui o talento e a efusão de idéias é substituída por um diálogo de lacônicas respostas. Os lábios em tons rubros lhe são o adorno do rosto, mas não os porta-vozes do espírito.
Há criaturas que não compreendemos pela facilidade com que podem ser compreendidas. As festas, para Ofélia, tinham de ser cheias de eventos sucessivos, pois qualquer traço de calma já lhe remetia à monotonia e a entediava. Os livros eram como castigos auto-imputados, pois também lhe aborreciam, mas proporcionavam meios de se mover nas altas esferas, escondendo sob a máscara da intelectualidade a falta de argúcia. Nada ali era muito verdadeiro e, simultaneamente era de uma verdade insipiente, pois nenhum desejo era sublimado e, se houvesse alguma sublimação, significava ter atingido o limite entre o desejo e a honra. Nenhuma risada contida, nenhum pensamento irrefletido permanecia calado, este pequeno córrego era selvagem em sua natureza, pois em nenhum ponto permitia-se represar, nenhuma contenção da vazão.
Raros momentos, porém, manifestam alguma inteligência em Ofélia: a raiva, o delírio, a frustração; e isto pode se explicar pelo fato de a estupidez lhe ser um elemento positivo e a inteligência uma força negativa, devendo a todo custo ser evitada. É um ouriço, armado, inchado em defesa. Frágil, se arma somente sob ameaça, somente com o cunho de macular e se defender. Na acusação de sua estupidez ela se arma, com uma verborragia incontinente, clamando sua erudição adquirida a duras custas e sofrimento – não por deleite – chicoteando e argumentando com língua ferina, reivindicando sua tão preciosa honra.
Sua cavidade já foi muito perscrutada como um meio de compensação, pois esta é a lei dos homens: a falta de prazer na mente justifica o prazer no corpo, e quando a mente não se deleita, o corpo aberto se deita. Ofélia, tua pureza não advém da disciplina, mas de teus amores escondidos, bem ocultados, preservando aquilo que chamas de honra.
Ofélia passou, sua vida passou, como um filete d’água esgotado, ninguém percebe. Sua vida toda passou, sem significado, sem mudança. Morreu quase tal como nasceu. O tempo se esgota, a ampulheta da vida escoa seus grãos inexoravelmente, reduzindo nossa jornada. Por quais paragens deixamos nossas pegadas? Quem encontramos? Quem mudamos? Quem nos mudou? O que tal odisséia significou?








